Outro dia, olhando a galeria do celular, pensei em uma coisa que talvez aconteça em muitas famílias: existem centenas, talvez milhares de fotografias dos nossos filhos, registros de aniversários, viagens, primeiros dias de aula, tardes na praia, encontros com os avós, brincadeiras dentro de casa e até daqueles momentos absolutamente comuns que, sem sabermos exatamente por quê, sentimos vontade de guardar. Fotografamos porque alguma coisa dentro de nós reconhece que aquilo está passando e que, um dia, vamos querer voltar.

Talvez exista nisso uma forma muito particular de maternar. Enquanto a infância acontece, muitas vezes somos nós que percebemos que aquele instante merece ser preservado. Pegamos o celular quando eles estão distraídos, pedimos para olharem para a câmera, gravamos a gargalhada, fotografamos o jeito de dormir, o desenho recém-terminado, o abraço no pai, a mão pequena segurando a mão dos avós. Sem perceber, vamos construindo uma espécie de arquivo afetivo da infância dos nossos filhos, como se estivéssemos tentando guardar um pouco daquilo que sabemos que o tempo inevitavelmente levará.

Mas existe algo curioso nesse arquivo: muitas vezes, quem mais se preocupa em construí-lo é justamente quem menos aparece nele.

A mãe estava na viagem, mas foi ela quem tirou as fotos. Estava no parque, mas fotografou o filho correndo com o pai. Preparou o aniversário, escolheu o bolo, arrumou a roupa, recebeu as pessoas e registrou cada detalhe, mas talvez apareça em duas ou três imagens daquele dia. Estava naquele domingo comum, naquela manhã preguiçosa, naquele passeio que ninguém planejou, mas, quando alguém olhar as fotografias muitos anos depois, pode parecer que ela não estava ali.

E não é apenas porque estamos atrás da câmera. Às vezes também aprendemos a recusar as poucas oportunidades de estar diante dela. Pedimos para não fotografar porque estamos cansadas, porque não gostamos do nosso corpo naquele momento, porque o cabelo não está como gostaríamos, porque estamos com a roupa de ficar em casa ou porque imaginamos que haverá uma ocasião melhor. “Depois a gente tira uma foto.” E o depois vai chegando acompanhado de outros dias, outras fases, outras versões de nós mesmas.

Talvez o que a gente esqueça seja que aquela fotografia não precisa ser bonita para ser importante.

Daqui a vinte ou trinta anos, nossos filhos provavelmente não estarão olhando para essas imagens com os mesmos olhos críticos com que nos olhamos hoje. Talvez não percebam os quilos que queríamos perder, a roupa que achávamos inadequada ou o cabelo que não arrumamos. Talvez estejam procurando outra coisa: o rosto da mãe que eles tinham naquela época, a maneira como ela os segurava, como sorria, como se sentava à mesa, como caminhava ao lado deles, como era a casa quando todos ainda moravam juntos. Talvez queiram simplesmente confirmar, através de uma fotografia, aquilo que a memória já não consegue reconstruir por inteiro: "ela estava ali comigo".

Porque as fotografias da infância não pertencem apenas à criança que aparece nelas. Elas também contam quem estava ao redor enquanto aquela criança crescia. São pequenos vestígios de uma família em determinada época, de pessoas que ainda tinham aquela idade, daquele corpo que carregava no colo, daquela casa que depois mudou, das relações que se transformaram e de uma vida cotidiana que parecia tão comum enquanto estava acontecendo.

Há, então, algo ainda mais singular nessa ausência das mães das fotografias. Durante muitos anos, podemos nos dedicar tanto a registrar a infância dos nossos filhos que esquecemos que também estamos vivendo uma fase da nossa própria história. Enquanto eles estão crescendo, nós também estamos envelhecendo, mudando, aprendendo, nos tornando outras mulheres. A fotografia que hoje parece apenas “uma foto minha com meu filho” poderá ser, no futuro, um dos poucos registros de quem eu era enquanto ele tinha quatro, cinco ou dez anos.

Talvez por isso não devêssemos esperar estar prontas para aparecer. Nem mais magras, nem mais arrumadas, nem descansadas, nem vivendo um momento especial. Talvez valha pedir a fotografia justamente no dia comum, sentada no chão da sala, esperando a comida chegar, levando para a escola, caminhando de mãos dadas, com a casa bagunçada ao fundo e a vida acontecendo sem qualquer intenção de parecer bonita.

Porque haverá um tempo em que essas cenas banais deixarão de existir. Os brinquedos sairão da sala, as mãos não serão mais pequenas, os colos ficarão desnecessários e muitas das coisas que hoje se repetem todos os dias passarão a existir apenas na memória. E, quando nossos filhos voltarem a essas imagens, possivelmente, também queiram ver a mulher que estava ali enquanto a vida, simplesmente, acontecia.

Esse, talvez, seja o lembrete: continue fotografando seus filhos, guarde os detalhes, registre as fases, faça vídeos demais se isso fizer sentido para você. Mas, de vez em quando, entregue a câmera para outra pessoa e entre na fotografia.

Não para provar que você esteve presente. Mas porque você também faz parte da história que está tentando guardar.